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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Património: uma opção estratégica

A relação entre construção e preservação do património tem gerado muita polémica e bastante debate em Braga. Muitas vozes têm tomado posição em defesa do que resta, nomeadamente, de Bracara Augusta. Há unanimidade em relação a este assunto: o património é encarado como uma opção estratégica.

Neste menu pode ler algumas opiniões de um rol que conta com a prestação de um arqueólogo, líderes de associações ambientais e de defesa do património, responsáveis dos partidos políticos mais representativos em Braga (até ao momento, apenas o PS não enviou a sua colaboração), um docente universitário e mesmo um arquitecto, que explica quais os instrumentos de planeamento do território que estão à disposição de quem decide, como é o caso do Plano Director Municipal e dos instrumentos que lhe estão associados.

Pode ler cada uma destas opiniões clicando nos links que se seguem:

- Património como meio sustentável para a cidade, Ricardo Silva, arqueólogo e coordenador-geral da JovemCoop;


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Pode uma Academia ficar indiferente à destruição de um Monumento Nacional?, Miguel Bandeira, docente da Universidade do Minho e membro da Associação para a Defesa, Estudo e Divulgação do Património Cultural e Natural (ASPA);


-"Em Braga, o debate sobre o património tem sido uma verdadeira pedra no sapato do Partido Socialista", Carlos Almeida, líder concelhio do PCP de Braga;


-
Fazer futuro, Ricardo Rio, cabeça de lista à Câmara Municipal de Braga nas próximas Eleições Autárquicas pela coligação Juntos por Braga (PSD/CDS-PP/PPM);


-"Triturada pelos negócios, a cidade que temos é a imagem dos autarcas que temos e das elites empresariais que alimentamos", Custódio Braga, membro do Secretariado de Braga do BE e da Mesa nacional do BE;


-O Complexo Monumental das Sete Fontes, texto de reflexão da responsabilidade da JovemCoop;


-"O problema não está no político que não estudou Arquitectura ou Arqueologia, mas nos organismos que deviam zelar pelo património", Fernando Costa, arquitecto numa Câmara Municipal, onde trabalha no Departamento de Planeamento.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Património como meio sustentável para a cidade (*)

Quando falamos de património, estamos, geralmente, a invocar uma memória do passado, que nos remete para um tempo, para uma vivência culturalmente diferente da actual. Por isso, se visitarmos as grutas de Lascaux, imaginamos como viveriam os homens na Pré-história, fazendo, de forma rude, os seus instrumentos e atacando os animais de grande porte, numa verdadeira batalha pela sobrevivência.

Ao visitarmos o Coliseu em Roma, entramos num imaginário de imperadores, legiões e gladiadores. Somos capazes de imaginar como seriam aquelas digladiações e como se moveria o polegar do imperador a dar indicação de vida ou de fim de combate.
Também nos sentimos transportados pelo tempo ao visitar o castelo de Warwick, em Inglaterra. Aí parece que respiramos o tempo dos combates entre cavaleiros, imaginamos invasões pelas muralhas do castelo, após transpor o fosso.

Esta é uma das funções do património. Contextualizarmo-nos à época, saber como os homens transpunham as dificuldades e viviam o seu dia-a-dia. E, com certeza, que isto nos ajuda a perceber o nosso presente e a delinear estratégias para o futuro.
Mas após aquilo que descrevemos em cima, acreditamos que o Património tem uma outra função igualmente importante. O Património pode incentivar um indústria que pode gerar recursos financeiros, se bem pensados e geridos. É usual, ao visitar um país ou cidade diferentes, planear os percursos e visitas. Gerir o tempo para poder ver o monumento A, B e C e ter tempo para passar por alguns Museus, jantar num restaurante típico de uma praça monumental, ou ir passear até ao Parque da Cidade que tem um monumento que atrai muitos turistas. Isto é aquilo que usualmente fazemos quando viajamos…vamos fruir das heranças culturais de outros países, e temos gosto em ver monumentos, ruas, edifícios, museus, peças móveis de extrema beleza. E será que sabemos apreciar aquilo que é nosso? Quantas pessoas conhecem os estilos arquitectónicos da Sé de Braga, ou sabem quem projectou as maravilhosas escadas temáticas do Bom Jesus? Quantas pessoas sabem que as Sete Fontes são obra de arcebispos, ou que no lugar do Novo Estádio Municipal existia um povoado da Idade do Ferro, conhecido como Castro Máximo? E quantas pessoas sabem que a Casa das Goladas tem figuras de Reis de Portugal pintadas na clarabóia?

Há falta de divulgação dos nossos monumentos ou sítios de interesse, e se nós não conhecemos, é-nos difícil gostar e defender as nossas raízes culturais. Se nós não conhecemos, não saberemos divulgar e, assim, dificilmente promoveremos a indústria do património e, por associação, o turismo. E é isso que faz falta ao nosso país, divulgar o que temos de melhor, aquilo que marca a diferença entre o nosso país e os outros, dando lugar a uma partilha de conhecimento e informação a quem nos visita.
O património, em Braga, tem sido maltratado, porque é visto como um retrocesso na evolução da cidade. Não concordamos com esta postura, por tudo o que já expusemos anteriormente, porque poderíamos marcar a diferença, porque poderíamos incrementar o conhecimento sobre a História da Cidade de Braga e transportar as pessoas a um imaginário passado, potenciando o presente e podendo planear o futuro com mais coerência.

Contudo, Braga tem privilegiado as novas construções, tem promovido a expansão da cidade. Não somos contra isto, porque é óbvio que a cidade tem de estar preparada para os desafios que são lançados constantemente, contudo, creio que faz falta haver um planeamento ordenado que promova esta simbiose…o passado e o futuro, de uma forma sustentada e sustentável.

E a postura de que Braga está a construir novo património é falaciosa (lembramos o caso do Novo Estádio Municipal). Não se pode concordar em construir um estádio de milhões, que raramente as pessoas acorrem até ele (dizem-no desconfortável), destruindo os vestígios do Castro Máximo. Ainda por cima, a estratégia de marketing do Sporting Clube de Braga passa por vestir os jogadores de Soldados Romanos. É um aproveitamento inteligente, de uma situação que lesou, claramente, o património de Braga.

Assim, perdemos potencial de concorrência com outras cidades, assim dificilmente atingiremos valores turísticos de alto índice. E nós precisamos que haja turismo, tendo em conta que o centro da cidade de Braga está tão descaracterizado, porque as fachadas estão a ser alteradas e os conteúdos internos das casas arrasados; não tem comércio tradicional (ou tem raros exemplos); tem poucas zonas de interesse histórico abertas ao público; os serviços comerciais são standardizados à escala mundial (falamos de grande superfícies comerciais onde estão representadas marcas que também estão presentes noutros países), não havendo produtos “únicos” representativos de Braga. E a breve prazo pagaremos a factura do desrespeito que temos pelas nossas heranças passadas. Um centro urbano deserto, sem pessoas…
Pugnamos por mais incentivos para o património, como marca única de Braga, para que saibamos amar o que é nosso, promovamos a fixação populacional em Braga e demos condições para gerar empregos através de uma área que ainda não está saturada – o turismo pelo património.

(*) Ricardo Silva, arqueólogo e coordenador-geral da JovemCoop (Jovem Cooperante Natureza/Cultura).

segunda-feira, 4 de maio de 2009

"Em Braga, o debate sobre o património tem sido uma verdadeira pedra no sapato do Partido Socialista" (*)

Em Braga, o debate sobre o património tem sido uma verdadeira pedra no sapato do Partido Socialista. A salvaguarda e a valorização patrimonial não se coadunam com uma gestão mais interessada no aparente dsenvolvimento, por vaidade própria, que vê na construção desenfreada o único índice de progresso.

Braga teve um crescimento apressado, ao ritmo dos interesses privados, de construtoras e imobiliárias, sem que tenha havido qualquer planificação, pondo em causa o seu património histórico e cultural, o seu potencial arqueológico e a qualidade de vida dos seus habitantes. Na cidade de Braga parece não haver regras, mecanismos legais ou instrumentos reguladores, capazes de controlar o apetite dos grandes empreiteiros. Em Braga tudo é possível. Invadir a encosta do Bom Jesus com betão é tão fácil como construir milhares de apartamentos em edifícios desprovidos de qualidade, enquanto o parque habitacional do centro histórico vai sendo depredado.

O urbanismo, filho mal amado desta histórica cidade, não colhe afecto e dedicação dos senhores que a governam há mais de 30 anos. Durante todo este tempo, em que o Partido Socialista açambarcou Braga para si, a cidade ficou completa e irremediavelmente descaracterizada, desorganizada e desbaratada. A qualidade de vida dos bracarenses ficou e está comprometida por opções francamente erradas de favorecimento dos interesses privados.

Um pouco por todo o concelho surgem as queixas e as denúncias de moradores sobre obras ilegais, trocas de terrenos premeditando a sobrevalorização, abusos e ocupação do espaço público, etc. Por diversas vezes ouve-se falar na imprensa local de processos judiciais que envolvem técnicos do município. Noutros casos estão mesmo em causa acções de políticos que ocupam lugares no exercício do poder local. Bem sei que muito se fala e pouco ou nada se prova. São consequências de um sistema capitalista em que o poder económico se sobrepõe a tudo o resto. A justiça tarda ou falha, mas é inegável a presença assídua de um clima de suspeição, o que, por si só, é muito negativo para as Instituições Públicas e para a própria Democracia.

Falar de património em Braga obriga a falar nos danos já causados, alguns irreversíveis como nos casos da construção do parque de estacionamento da Avenida Central, do abandono do complexo das Sete Fontes ou da artificialização do rio Este.

A Câmara Municipal de Braga há muito que deveria ter actuado na defesa e salvaguarda do património natural, arqueológico e arquitectónico da cidade, para usufruto e lazer da população e visitantes. Mas não o fez. Por isso pode-se afirmar que a Câmara de Braga escolheu, porque assim quis, e absolutizou, outras prioridades e valores.

Aqui em Braga fizeram-se grandes negócios, que deram lugar a grandes empresas, que fazem furor a nível nacional. Já não é só o urbanismo em Braga que vende notícias, também as empresas de cá têm esse dom. E nunca pelos melhores motivos. Vá-se lá saber quem apadrinha este jogo de bastidores.

(*) Carlos Almeida, líder concelhio do PCP de Braga e membro da Assembleia Municipal de Braga eleito pela CDU.

Fazer futuro (*)

Braga é, como tem sido amplamente divulgado, um Concelho com um vasto e diversificado património, legado das múltiplas vivências da sua História bimilenar.

Se, à vista “desarmada” do conhecimento científico, são monumentos como a Sé de Braga, o Bom Jesus, o Sameiro, o Mosteiro de Tibães, as Sete Fontes ou vários edifícios dos últimos dois séculos que mais impressionam do ponto de vista patrimonial, sou dos que acreditam que a nossa maior riqueza e o maior potencial de diferenciação assenta na vasta presença romana que deu origem à “Bracara Augusta”.

Se os diferentes activos já preservados em correctas parcerias público-privadas (como a Estação da CP, as Frigideiras do Cantinho, a Paularte, etc.) ou os espaços públicos (como o Museu D. Diogo de Sousa, a Fonte do ídolo ou as Vias Romanas intervencionadas) se unirem à recuperação premente do Teatro Romano, à musealização da Ínsula das Carvalheiras e a uma correcta abordagem a outros achados que possam surgir (como recentemente ocorreu no antigo Quarteirão dos CTT), o roteiro da Braga Romana pode assumir-se como um factor competitivo único na afirmação externa do nosso património.

Duas notas a este propósito. Em primeiro lugar, para clarificar que cada uma das componentes antes enunciadas deve ser entendida como peça complementar de um mesmo puzzle de valorização da nossa História, e que a especial aposta na vertente romana não põe em causa a premente estratégia de preservação e promoção das demais valias monumentais.

Em segundo lugar, para lembrar que, como múltiplas vezes vem sendo sugerido pelos próprios especialistas da Unidade de Arqueologia da Universidade do Minho –entidade essa indissociável do trabalho que tem sido desenvolvido nesta área – os parcos exemplos de sucesso deste esforço de preservação ocultam uma multiplicidade de situações em que o respeito pelo património não esteve no topo das prioridades, fosse em obras públicas ou privadas.

Também por isso, defendi recentemente que a Autarquia deveria adoptar, em parceria com as entidades responsáveis pelos trabalhos arqueológicos, um Sistema de Informação Pública sobre o desenvolvimento das diferentes intervenções em curso.

De igual forma, visando suprir a falta de uma política integrada de preservação e promoção do património, em conjunto com a inexistência de um roteiro turístico especialmente vocacionado para o sector patrimonial, sugeri a possibilidade de adopção de um modelo de gestão assente na criação de um consórcio, similar ao que vigora em Mérida.

Em verdade, dado o êxito indesmentível deste modelo não só na recuperação da vertente arquitectónica e cultural da localidade espanhola, mas também e sobretudo da própria dinâmica turística e da afirmação externa da cidade, que se alicerçou na herança histórica como base de um projecto de futuro, Braga teria tudo a ganhar com um projecto análogo.

Para tal, defendi a integração de instituições como a Câmara Municipal, o Ministério da Cultura, a Universidade, a Diocese e entidades de natureza empresarial que se dedicam ao mecenato.

Se acrescermos a tal estratégia política para a gestão municipal neste domínio a tenacidade de organizações como a ASPA, a JovemCoop e diversas Juntas de Freguesia, bem assim como, a crescente abertura dos cidadãos Bracarenses para esta temática – como bem demonstrou a impactante Marcha pelas Sete Fontes, estarão reunidos os ingredientes para inverter o rumo de esbanjamento do nosso património e para encetar decisivamente a via da sua salvaguarda, valorização e divulgação.

(*) Ricardo Rio, Cabeça de lista à Câmara Municipal de Braga nas próximas Eleições Autárquicas pela coligação Juntos por Braga (PSD/CDS-PP/PPM), actual vereador no executivo municipal de Braga.

"Triturada pelos negócios, a cidade que temos é a imagem dos autarcas que temos e das elites empresariais que alimentamos"(*)

Raramente encontraremos um conflito entre a construção, socialmente necessária, e a preservação do património. Um caso que se aproximava desta rara configuração foi o da barragem de Foz Côa. Teve o desfecho que teve.

Mais raro ainda será encontrar, no espaço de uma cidade, contradição insanável entre a preservação de património construído ou natural e novas construções de habitação ou equipamentos de evidente interesse público. A cidade é entidade plástica e dinâmica quanto baste para absorver e conjugar em si a variedade da sua estratificação histórica, bem como todas as diversidades geográficas ou culturais. Uma cidade é isso: uma construção complexa que percorre o tempo, o espaço por excelência da cooperação social, harmónico e contraditório até ao caos, vivo, porque é nele, principalmente, que corre a vida de cada vez mais milhões de pessoas.

Contudo, a cidade é ou não é a sede da democracia. Quaisquer Ceausescus ou Mussolinis puderam entreter-se a terraplanar cidades de muitas gentes e de muitos tempos e a erigir deprimentes litanias de betão às suas megalomanias autoritárias. Entre nós, mais brandos que somos, o camartelo está nas mãos de restritos interesses privados, que tiveram o engenho de transformar em moeda sonante terrenos que “só serviam para criar matos” e “casas velhas e ruínas que só criavam ratos”. Nesta conjuntura, um poder camarário, como o de Braga, pode ter, e tem, um papel determinante. O presidente da câmara de Braga já se repetiu a declarar que uma cidade não pode ser feita á medida e ao gosto deste ou daquele indivíduo e dos seus amigos, como eles gostariam que fosse: não pode ser feita ao gosto da ASPA, da Braga Tempo, deste ou daquela professor ou professora da UM, em geral dos já genericamente designados “intelectuais da Brasileira”. E tem razão: uma cidade é o produto da conjugação e da contradição de uma multiplicidade incontável de vontades; agora o que não deve ser, tão-pouco, é, e por exclusão de partes, o resultado do gosto e do interesse do presidente da câmara e dos seus amigos e comparsas. Triturada pelos negócios, a cidade que temos é a imagem dos autarcas que temos e das elites empresariais que alimentamos. Porque sabemos o que a casa gasta, o programa do Bloco de Esquerda inclui, desde 2001, ano da nossa primeira candidatura autárquica, a proposta de "elaboração de uma Carta do Património Construído e Natural, a partir da qual fossem definidas Zonas Intocáveis, espaços de património que participam da memória da cidade e que devem ser tratados no sentido da sua fruição colectiva e como requalificadores das suas áreas envolventes. O programa para as Zonas Intocáveis integraria, entre outras, o Parque da Ponte, a Fonte do Ídolo, o Lugar dos Galos, os terrenos entre a Rodovia e o Rio Este (Bracalândia e área adjacente), o Parque da Sra. de Guadalupe, as Sete Fontes, o Monte do Bom Jesus e as ruínas romanas de Bracara Augusta". Qualquer cidadão minimamente atento sabe de tudo o que não tem sido feito.


(*) Custódio Braga, membro do Secretariado de Braga e da Mesa nacional do BE.